A população mundial com idade acima dos 60 anos tem vindo a crescer mais rapidamente do que qualquer outra faixa etária, criando vários desafios socioeconómicos. Encontrar estratégias para preservar a independência funcional da população idosa por tanto tempo quanto possível, é uma prioridade para reduzir a carga sobre o sector da saúde e melhorar a qualidade de vida da população idosa. Em 2015, a Organização Mundial de Saúde (OMS) definiu Envelhecimento Saudável como “o processo de desenvolvimento e manutenção da capacidade funcional que permite o bem-estar em idade avançada”. Com esta definição, Envelhecimento Saudável coloca o individuo como um participante ativo na gestão da sua própria saúde (autogestão da saúde), com foco na importância dos comportamentos saudáveis como estratégicas essenciais para preservar a capacidade funcional em idade avançada. Neste contexto, a capacidade funcional deve ser entendida como o conjunto dos atributos relacionados com a saúde que permitem que os indivíduos sejam ou façam o que valorizam. Os serviços de telemedicina ou eHealth – i.e. a utilização de Tecnologias da Informação e da Comunicação na prevenção, diagnóstico e/ou tratamento de doenças à distância – são promissores no apoio que podem proporcionar a idosos, designadamente na adoção e manutenção de comportamentos saudáveis. O objetivo desta Dissertação é explorar o potencial representado pela tecnologia no apoio ao Envelhecimento Ativo e Saudável no quotidiano do individuo idoso, focando na promoção de atividade física e bem-estar emocional no dia-a-dia.

No Capítulo 1 apresentamos a investigação em Envelhecimento Ativo e Agradável, que dá título a esta Dissertação, emergindo como área de sobreposição de três temas: Envelhecimento Ativo e Saudável, atividade física e bem-estar emocional. O primeiro tema, Envelhecimento Ativo e Saudável, foi já introduzido. O segundo tema, atividade física, é um dos comportamentos mais importante nas estratégias de apoio ao Envelhecimento Saudável. A atividade física, referida nesta investigação como o total de movimento voluntário produzido por músculos esqueléticos durante o dia-a-dia, tem benefícios comprovados para a saúde física e preservação da capacidade funcional dos idosos. Apesar dos conhecidos benefícios de um estilo de vida ativo para a saúde, uma grande parte da população idosa não atinge os níveis de atividade recomendados. Quando questionados sobre as barreiras que impedem o envolvimento em atividade física, os idosos referem, com frequência, as limitações de saúde, a falta de interesse, a falta de tempo, ou o desagrado do esforço requerido para o exercício. Nesta Dissertação, investigamos abordagens para promover a atividade física no dia-a-dia da população idosa, apoiando, desta forma, o Envelhecimento Ativo e Saudável. O terceiro tema desta Dissertação é o bem-estar emocional, e refere-se à presença de emoções positivas (por exemplo, felicidade e calma), à ausência de emoções negativas (por exemplo, tristeza e angustia) e satisfação com a vida. As emoções positivas são influenciadas pelo contexto físico e social do individuo e, como tal, suscetíveis de flutuações no dia-a-dia. Tendo em conta que o nosso interesse é investigar estratégias que possam apoiar o Envelhecimento Ativo e Saudável no dia-a-dia, o bem-estar emocional – e em particular a experiência de emoções positivas – constitui o terceiro tópico central desta Dissertação.

No Capítulo 2 apresentamos os resultados de uma revisão sistemática da literatura sobre a relação entre emoções positivas e a capacidade funcional de idosos que vivam de forma independente, considerando apenas estudos empíricos (longitudinais ou transversais). Estudos científicos demonstram que um estilo de vida ativo tem implicações positivas na preservação da capacidade funcional. Mas qual é a influência das emoções positivas na preservação ou declínio dessa capacidade funcional? Os resultados da revisão da literatura apresentados neste capítulo sugerem evidência que sustenta uma relação entre a capacidade funcional e a intensidade e frequência da experiência de emoções positivas, embora a direção desta relação não esteja definida. Em particular, há evidência, embora limitada, que a experiência mais frequente de emoções positivas está associada a uma melhor capacidade funcional e retardamento do declínio funcional. A revisão da literatura apresentada não permite uma conclusão integrada devido ao número limitado de estudos que atendem os critérios de inclusão, bem como as disparidades entre os métodos de recolha de dados e amostras populacionais. No entanto, os resultados apresentados estão de acordo com as teorias da psicologia positiva que sugerem que a experiência frequente de emoções positivas suporta uma variedade de recursos de resiliência, como a análise do ambiente e a procura de apoio social, que melhoram a capacidade de adotar estratégias favoráveis, em momentos de adversidade, característicos de uma idade avançada. Em síntese, a revisão dos estudos empíricos, alinhados com estudos teóricos, sugere que há evidência no sentido de que o bem-estar emocional tem implicações positivas para a capacidade funcional dos idosos, e assim sendo, deve ser tido em consideração em estratégias para o apoio do Envelhecimento Ativo e Saudável.

No Capítulo 3 apresentamos os resultados de um estudo longitudinal que investiga o contexto físico e social da atividade física (por exemplo, localização, interação social e tipo de atividade), e o prazer associado, no dia-a-dia dos idosos. Através de um estudo longitudinal intensivo – repetidos momentos de medição ao longo do dia para investigar as atividades do dia-a-dia foram combinados com o uso contínuo de um acelerómetro para monitorizar a atividade física – verificámos a importância das atividades realizadas fora de casa e das relações sociais na atividade física diária. Além disso, os nossos resultados indicam que atividades de lazer, intensificam tanto a atividade física como a experiência de emoções positivas (neste caso prazer). Esta relação não se verifica quando os idosos estão ocupados com atividades básicas do dia-a-dia (e.g. transporte e atividades de cuidado pessoal). Os resultados do estudo apoiam a hipótese de que uma estratégia para o apoio de Envelhecimento Ativo e Saudável possa passar por identificação e promoção de atividades diárias que contribuam simultaneamente para a atividade física e bem-estar emocional dos idosos.

Tendo em vista o objetivo inicial de investigar possíveis utilizações de tecnologia para apoiar o Envelhecimento Ativo e Saudável no dia-a-dia, nesta Dissertação investigamos também quais as atitudes e expectativas dos idosos relativamente a tecnologia que suporta monitorização da saúde. Este estudo foi dividido em duas partes. Numa primeira parte, através de extensivas entrevistas semiestruturadas, investigámos as práticas atuais na autogestão da saúde no dia-a-dia, assim como as atitudes em relação ao uso de tecnologia no apoio ao Envelhecimento Ativo e Saudável. Este estudo analisou quatro domínios da saúde: aptidão física, aptidão cognitiva, nutrição e bem-estar. Os resultados apresentados no Capítulo 4 sugerem que o grau de envolvimento dos idosos na gestão da própria saúde depende de vários fatores, entre eles o historial médico de si mesmos e de parentes próximos. Além disso, verificamos que os idosos têm uma atitude positiva em relação ao uso de tecnologia no dia-a-dia para ajudar na autogestão da saúde, desde que essa tecnologia esteja adaptada às suas necessidades e preferências do dia-a-dia, seja empática e não substitua o contacto humano. Concluindo, os idosos entrevistados reconhecem o potencial valor do uso de tecnologia para a autogestão da saúde e motivação de comportamentos saudáveis que os apoie no Envelhecimento Ativo e Saudável.

Na segunda parte do estudo, os mesmos idosos que participaram nas entrevistas apresentadas no Capítulo 4, receberam uma pequena intervenção – consistindo na definição de objetivos e feedback – para promover a atividade física diária e monitorizar o bem-estar emocional. Os dados recolhidos através de um contador de passos e de questões repetidas numa aplicação de telemóvel, foram analisados e combinados com os dados adquiridos através de novas entrevistas semiestruturadas, de forma a investigar como os participantes experienciaram o uso de tecnologia no dia-a-dia durante 4 semanas. Os resultados deste estudo, apresentados no Capítulo 5, sugerem que as atitudes relativas à tecnologia permaneceram positivas, ou melhoram, após o período do estudo. Os participantes mostraram-se satisfeitos com a monitorização da atividade física, mas não tão positivos relativamente à monitorização do bem-estar emocional. Desta forma, ainda no capítulo 5, discutimos a insatisfação dos idosos relativamente à monitorização do bem-estar emocional, nomeadamente aqueles causados por diversos desafios inerentes ao uso de sistemas de monitorização ambulatória na investigação de comportamentos do dia-a-dia.

O Capítulo 6 apresenta uma revisão da literatura referente a tecnologia utilizada no apoio ao Envelhecimento Ativo e Saudável, com destaque para a promoção da atividade física e bem-estar emocional, focando-se em 4 componentes: monitorização, análise, estratégias de motivação e aplicações. Para cada uma destas componentes, analisamos o passado e o estado-da-arte, integrando também as lições aprendidas nos estudos desenvolvidos ao longo desta dissertação. O capítulo é finalizado com um olhar às tendências futuras relativas à tecnologia no apoio ao Envelhecimento Ativo e Saudável.

Finalmente, no Capítulo 7, discutimos os resultados da nossa investigação e abordamos vários desafios associados à adoção da tecnologia (por exemplo, como é que o idoso tem conhecimento das tecnologias disponíveis). Adicionalmente, discutimos como as lições aprendidas nesta Dissertação podem ser aplicadas a um contexto mais abrangente, como o apoio à autogestão de doenças crónicas.